Em contramão: O coelho cabeçudo!

 

É oficial, a Terça-Feira Gorda encontra-se hospitalizada. Embora sob prognóstico muito reservado tudo indica que poderá sofrer de uma anorexia nervosa muito por força da recente estratégia de emagrecimento das “Gorduras do Estado”, que segundo Passos Coelho é um mal estritamente necessário mas não sendo eu perito em nutrição nada posso confirmar. A notícia surgiu no seguimento do nosso governo ter anunciado a despromoção da terça-feira de Carnaval a comum e desinteressante dia semanal.

 

Ao que parece, quer o governo acreditar que não concedendo tolerância de ponto na respectiva data aumentará a produtividade nacional visto que por dia os funcionários públicos conseguem produzir riqueza na ordem dos 53 milhões de euros. Ora, a meu ver, o cálculo poderia até estar correcto se os cerca de 700 mil trabalhadores do estado fossem de facto trabalhar o que, a julgar pelo Samba que já se vai fazendo ouvir, não me parece. Tal consideração leva-me até a esmiuçar os diferentes tipos de funcionários públicos que na minha opinião são três: o funcionário público que faz o seu trabalho; o funcionário público que faz o seu trabalho e o dos outros; e, obviamente, os outros que só dão mau nome. Mas não entremos por aí.

 

Falando em mau nome chega a ser caricata esta decisão de Passos Coelho que justificou como imprescindível e atempada visto que foi anunciada a uns longínquos vinte dias do evento. É aqui que citando Agostinho Lopes exerço o meu direito de resposta ao Primeiro-Ministro dizendo-lhe “Não digas asneiras porra”. É óbvio tal medida só vem evidenciar as divergências existentes entre o poder central e o poder local que, na sequência dos avultados investimentos já realizados, prefere a folia do Carnaval à intransigência do governo. Tome-se a Madeira como bom exemplo – é talvez a única situação em que podemos fazê-lo – à semelhança de inúmeras autarquias que compreendem a importância do Carnaval enquanto gerador de riqueza (14 no distrito de Évora).

 

Inúmeros são também os rumores de que outros dias poderão na verdade ter os dias contados. Segundo consta na mira está também a Quarta-Feira de cinzas que no âmbito da proibição de fumar nos espaços públicos se tornou deveras inconveniente lado a lado com a extinção do dia de Natal em função das estranhas circunstâncias do nascimento do menino, de quem ninguém consegue provar a paternidade.

 

Da mesma forma, a Sexta-Feira santa, dia que assinala a morte de Cristo, poderá também ser anulada em virtude do corpo ainda se encontrar desaparecido e da não existência de certidão de óbito. Rezam fontes oficiais que estará vivo e de boa saúde no seio de uma comunidade hippie usurpando do dinheiro do seguro de vida e de um desfalque em Fátima. Bem mais inseguro e correndo perigo de vida está também o Domingo de Páscoa pelas razões óbvias pois não se consegue provar a ressurreição de alguém que pode muito bem não ter morrido.

 

Voltando ao tema, nunca a terça-feira de Carnaval foi um assunto tão debatido no nosso país e quer-me parecer que para o nosso Primeiro, de tantos passos em falso, este Carnaval pode de facto ser o último e logo agora que o homem começava a ter jeito para Cabeçudo. Correndo o risco de ser piegas resta-me terminar com uma frase de consolo – Deixa Coelho, terás sempre a Páscoa.

 

David Barroso

(Cronista do EcosOnline)


11 de Fevereiro de 2012
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