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“A Linha de Caminho de Ferro era parte da minha alma”. Reportagem.

A casa que os Ramalho vieram habitar no verão de 1986 foi um descanso para Claudino.

 

Passaram anos desde que este reformado da CP deixou de trabalhar nas linhas de caminhos de ferro, de Estremoz. Foram “anos duros, sem maquinaria como há agora e com muito suor. Chegávamos a mudar de casa sempre que era preciso ir trabalhar para fora”, lembram os olhos de Claudino, sentado no sofá que o recebe todas as tardes.

 

A linha de caminho de ferro encerrou há demasiados anos e este antigo funcionário da CP, hoje com mais de 80, não entende “porque estragam o trabalho que em tempos fizemos. É um crime o que fizeram à nossa linha”…

 

Residentes nas últimas casas da CP, que em tempo albergaram muitos colegas de profissão, e que agora comemoram mais de 75 anos, são donos e senhores de um tempo que a memória lhes fustiga.

 

A dois

A sua história é feita a dois, como prova a mão da sua esposa Lucília sobre o ombro de Claudino, por quem se apaixonou, quando só duas linhas de caminho de ferro os separava. “Eu morava aqui, nesta que já era a casa dos meus pais, e esta rapariga bonita, morava ali nos prédios da frente”. O amor foi crescendo a cada estação. Assim Claudino o disse.

 

 

Tem passado muitas tardes à porta de casa com a esposa, olhando pelas cortina da porta o tumulto que se levantou lá fora. O ferro é levantado aos poucos, e com alguma sofreguidão Claudino vai contorcendo as mãos trémulas que agora passam várias vezes na testa, em sinal de negação.

 

Os filhos vieram e era hora de assentar. “Foram mais de quarenta anos de um lado para outro. Era preciso parar quando surgisse oportunidade e às vezes temos de pensar no bem dos que amamos, não estou arrependido”. Morou com a sua esposa em cinco localidades diferentes, um pouco por todo o país. “Algumas delas barracas, sem grande confortos, mas estávamos felizes e não podíamos deixar de trabalhar”, contava Lucília que agora ajeitava o naperon que dispunha o fruteiro na mesa.

 

A outra paixão

A linha apaixonou a vida de Claudino. Hoje a “minha segunda alma são os comboios e sempre que penso que já não vou ver a linha nunca mais”… [Os olhos de Claudino choram e pausam alguns minutos, como se tivesse perdido um bem querido, que não vai poder mais visitar]

 

De vez em quando, Claudino e a esposa ainda dão volta à caixa de memórias, com cartões, uma ou outra fotografia e objectos pessoais ligados à profissão. Todas carregadas de mil lembranças.

Em tempos, Claudino diz ter escrito um diário que pode ter perdido numa mudança de casa, mas que “guardavam em letras as coisas que mais amava: as histórias, as tristezas e alguns desgostos”. Nunca um desgosto tão grande como o que vê, sempre que a sua janela agora se abre.

 

A Mudança

Hoje. Claudino é tentado a mudar de casa. Quando lhe perguntamos o que ainda o prende ali, responde que “está aqui a minha vida, o som dos carris e de uma estação cheia de gente. Você imagina, jovem? … Mas nem sempre a casa é o sítio onde vivemos”, conta sabedor.

 

Os tempos levaram muitas histórias e dão hoje lugar ao que talvez seja progresso.

A estrada que será construída sobre a velha linha de Estremoz, deixa enterrados os mais belos momentos de alegria que eram sentidos em cada chegada de uma carruagem. “Os beijos, os abraços, as conversas de amigos. Era um sítio lindo para se ver”, fala Claudino de nó na garganta.

 

No antigo Museu, onde ainda dormem locomotivas e carruagens, Claudino guarda um segredo: “são todas como se fossem minhas e conheço-as como ninguém. Ali dentro guardo as memórias da minha vida e uma paixão. E ver aquele portão para sempre fechado, é encerrar um pouco de mim”…

 

Mas a estrada avança e a obra estará pronta até ao final do ano de 2011. Claudino acredita que o betão cobrirá o ferro, mas não acredita que seja a melhor solução, embora tenhamos tradição de enterrar um dia, os que mais gostamos guardando apenas os bons momentos.

 

Hoje, Claudino deixa as velhas imagens de uma linha abandonada para que outros construam as suas próprias memórias deste espaço, com a felicidade que hoje recorda as suas.

Terá sempre o progresso de viver de costas voltadas para história?

Ficará para sempre a dúvida.

 

Reportagem Liliano Pucarinho

 


16 de Junho de 2011
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3 comentários: ““A Linha de Caminho de Ferro era parte da minha alma”. Reportagem.”

  1. Eu não sei como é que esse casal de idosos agora vai viver com o som dos carros e camiões a passar todos os dias ao lado da sua porta.

  2. Obrigado pelo comentário Luís. É nas pessoas que reside a verdadeira visão do que projectamos para um futuro. Fica a memória de uma via de transporte e de comunicação que serviu a cidade e o país durante varios anos. A mudança terá de fazer parte das suas vidas. Mais uma vez.

    Ecos Online.

  3. É uma pena o que estão a fazer. Faziam melhores figuras se em vez de destruírem, reconstruissem de modo a que se pudesse voltar a utilizar os comboios. Isso sim era um bom investimento.

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